Nova classe média ou nova classe trabalhadora: um debate apenas conceitual?

O pensamento hegemônico que se propaga por meio da grande imprensa tem insistido na ideia de que no Brasil há uma “nova classe média”. Embora o fenômeno seja recente, os liberais têm usado o termo “nova classe média” para designar a ascensão econômica dos trabalhadores. Por sua vez os pensadores ligados ao que poderíamos chamar de “campo democrático popular” preferem o termo nova classe trabalhadora. Este artigo tem por objetivo mostrar que este debate não é apenas conceitual, é sobretudo uma disputa ideológica para compreender o novo fenômeno social gerado pelo governo Lula-Dilma

Nos últimos anos com a ascensão econômica de milhões de brasileiros passou-se a ser veiculado pela grande imprensa um novo fenômeno que seria o aumento da chamada classe média. A classe C, composta por famílias que têm uma renda mensal domiciliar total entre R$1.064,00 e R$4.561,00, seria parte desta nova classe média brasileira (IBGE, 2012). 

Há um problema conceitual nesta definição, pois definir classe social somente pelo fator renda, excluindo outras variáveis, tais como: posição na estrutura produtiva;  status social; grau de escolaridade, capital cultural, entre outros, gera um problema de compreensão sobre o fenômeno.

Tanto na Universidade como nos meios de comunicação os liberais passaram a destacar o surgimento desta possível nova classe média.
Quando paramos para analisar os dados da Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar realizada em 2011, PNAD-IBGE[1], observamos que o discurso sobre a “nova classe média” é uma retórica que não se sustenta.

No período analisado pelo PNAD – 2009 a 2011, houve a criação de 3,6 milhões de empregos com carteira de trabalho assinada no setor privado. No total de empregos na iniciativa privada, 74,6% tinham carteira de trabalho assinada. O rendimento das pessoas ocupadas, com rendimento, cresceu de R$1.242,00 para R$1.345,00, de 2009 para 2011. O rendimento de trabalho cresceu 8,3% nesse período.

Márcio Pochmann em seu livro Nova classe média? O trabalho na base da pirâmide social brasileira aborda o tema da geração de trabalho nos últimos 10 anos, segundo ele o governo Lula inovou na criação de novos empregos, conferindo aumento real da renda dos trabalhadores, sobretudo para os de baixa renda. Para o autor na década de 1990 – auge do neoliberalismo – estabeleceu-se um ritmo menor de geração de empregos. Ao longo desta década somente 11 milhões de novos postos de trabalho foram criados. Na faixa de renda de até 1,5 salários mínimo, houve redução de 300 mil postos de trabalho. Já na década de 2000 este cenário mudou, segundo Pochmann “esta década apresentou uma alteração importante no padrão de trabalho da mão de obra brasileira, marcada por forte dinamismo nas ocupações geradas e no perfil remuneratório. Do total líquido de 21 milhões de postos de trabalhos criados na primeira década do século XXI, 94,% foram com rendimentos de até 1,5 salários mínimo mensal (…) em síntese, ocorreu o avanço das ocupações na base da pirâmide social brasileira” (Pochmann, 2012, p. 27).

Pochmann  utiliza toda uma linha de raciocínio baseado nos dados da PNAD e do Censo do IBGE para mostrar que houve no Brasil uma forte formalização do mercado de trabalho e um aumento da geração de empregos no país na faixa de renda de até 1,5 salários mínimos, resultante, sobretudo da construção civil e do setor de comércio. Então não há o que se falar em “nova classe média” e sim no incremento de novos indivíduos em uma nova classe trabalhadora baseado no aumento real da renda destas categorias.

Os teóricos da esquerda preferem usar o termo “nova classe trabalhadora”. O André Singer e o Márcio Poccham mostram que por meio das políticas públicas do Governo Lula houve um aumento real dos salários, recuperando o poder de compra da classe trabalhadora. Existe sim uma nova classe trabalhadora que está sendo incorporada ao mercado de consumo de massa, mas não um incremento na classe média tradicional.

“Entende-se que não se trata da emergência de uma nova classe – muito menos de uma classe média. O que já, de fato, é uma orientação alienante sem fim, orquestrada para o sequestro do debate sobre a natureza e a dinâmica das mudanças econômicas e sociais, incapaz de permitir a politização classista do fenômeno de transformação da estrutura social e sua comparação com outros períodos dinâmicos do Brasil” (Pochmann, 2012, p.8).

A Professora Marilena Chauí e o sociólogo Jesse de Souza fazem uma forte crítica aos que propagam o termo “nova classe média”. Para Chauí a classe média tradicional sempre foi autoritária no Brasil, nunca lutou por direitos e sim por privilégios, portanto colocar estes novos trabalhadores que ascenderam economicamente como “nova classe média” é, sobretudo igualá-los a este segmento já tradicional, o que não é verdade em temos de formação escolar e cultural. O Professor de sociologia Jesse de Souza segue nesta linha, para ele a definição de nova classe média está inserido na “cegueira de pensar que as classes sociais se reproduzem apenas no capital econômico, quando a parte mais importante não tem a ver com isso, mas com o capital cultural, com tudo aquilo que a gente incorpora desde a mais tenra idade” (Souza, 2013).

Aparentemente parece ser apenas uma disputa conceitual do fenômeno, no entanto, esta é, sobretudo uma disputa política e ideológica sobre os rumos da formação da consciência destes novos trabalhadores. O grande capital, por meio da grande imprensa, propaga sua ideologia individual de culto ao consumismo, na medida em que designa que a  classe média aumentou nos últimos anos. Basta olhar para a história do Brasil para percebermos que a classe média tradicional nunca lutou por direitos e sim por privilégios, que esta classe tem no consumo individual um dos meios para garantir status na sociedade cindida pela desigualdade.

Quando os capitalistas interpretam que esta “nova classe C” com salários que variam de R$1.064,00 e R$4.561,00 é parte da nova classe média eles estão induzindo os trabalhadores a terem comportamentos e assimilarem valores da antiga classe média. Algo de difícil assimilação, como uma pessoa que cresceu na periferia e inicia um trabalho como auxiliar administrativo com um salário de R$1.200,00 pode ser considerada “classe média”? na verdade, ela é parte integrante da classe trabalhadora.

A quem interessa esconder o aumento da classe trabalhadora nos últimos anos? As disputas semânticas em torno deste fenômeno escondem disputas que estão sendo travadas no seio da luta de classes no Brasil. Cabe aos setores progressistas da sociedade travar esta batalha para continuar ganhando corações e mentes dos trabalhadores que estão ingressando no mercado de trabalho para que sejam sujeitos ativos em busca de direitos e não consumidores alienados como querem os conservadores.

 

Heber Silveira Rocha
Bacharel em Gestão de Políticas Públicas – USP

Mestre em Administração Pública e Governo – FGV

 

 

Bibliografia

Pochamann, Marcio – Nova classe média?: o trabalho na base da pirâmide social brasileira: São Paulo. Boitempo, 2012.

Singer, André – Os sentidos do lulismo: reforma gradual e pacto conservador. São Paulo. Companhia das Letras, 2012.

 




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Uma resposta to “Nova classe média ou nova classe trabalhadora: um debate apenas conceitual?”

  1. […] Atualmente, esquerda e direita travam uma batalha ideológica na tentativa de categorizar essa base da pirâmide que vem conquistando direitos econômicos e sociais no Brasil. Infelizmente a vantagem é dos defensores do capital e do modelo de vida alienante do consumismo. O tipo de comportamento que se espera de uma “nova classe média” consumista é completamente diferente do que se esperaria de uma “nova classe trabalhadora”, que, finalmente, tem alguns de seus direitos conquistados. O companheiro Heber Rocha tratou do assunto neste post. […]

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