Um projeto para a cidade

Trânsito na cidade de Guarulhos

Trânsito na cidade de Guarulhos

A receita da história de Guarulhos, na relação entre organização urbana e crescimento populacional, leva os mesmos ingredientes geralmente utilizados para as outras grandes cidades. Centro/periferia, áreas valorizadas/áreas desvalorizadas, concentração de empregos/bairros dormitórios, concentração de equipamentos/carência estrutural, especulação imobiliária/ocupação irregular. Soma-se a estas dicotomias comuns, o fato de Guarulhos ser cortado por três das mais importantes rodovias do Estado de São Paulo: Fernão Dias, Presidente Dutra e Ayrton Senna. O resultado não poderia ser outro se não uma grade concentração de trabalhadores na periferia e um enorme contingente de carros, caminhões e ônibus entre a casa e o local de trabalho.

 

A população habitacional da cidade cresceu vertiginosamente nos últimos 60 anos. Passamos de aproximadamente 35mil para 600mil pessoas, entre a inauguração das Rodovias Presidente Dutra e Fernão Dias à inauguração do Aeroporto Internacional de Cumbica. O fluxo migratório para Guarulhos se deu basicamente pela proximidade da cidade com a capital e pelos baixos custos necessários para se conseguir uma moradia, no geral, precária. De lá (anos 80) para cá, a população mais que dobrou, chegando a quase 1.300mil habitantes na cidade*. Neste meio tempo passamos de mero subúrbio da capital para uma cidade com boa oferta de empregos, com destaque para um importante polo industrial.

Não obstante, o crescimento populacional foi desacompanhado de qualquer planejamento ou projeto urbano adequado para acomodar os habitantes com as condições mínimas de dignidade. Os investimentos públicos na região central da cidade somados ao descontrole da especulação imobiliária foram responsáveis pela supervalorização do centro e seus arredores mais próximos, impossibilitando a permanência dos trabalhadores de menor remuneração. Com isso, restou a estes a ocupação (regular ou não) das regiões periféricas e a espoliação urbana.

“(…)a somatória de extorsões que se opera pela inexistência ou precariedade de serviços de consumo coletivo que, juntamente ao acesso à terra e á moradia apresentam-se como socialmente necessários para a reprodução dos trabalhadores (…) são inúmeras as manifestações dessa situação espoliativa, que vão desde as longas horas despendidas nos transportes coletivos até a precariedade de vida nas favelas, cortiços ou casas autoconstruídas em terrenos geralmente clandestinos e destituídos de benfeitorias básicas, isso para não falar da inexistência das áreas verdes, da falta de equipamentos culturais e de lazer, da poluição ambiental, da erosão e das ruas não-pavimentadas e sem iluminação”. (Lúcio Kowarick, A Espoliação urbana).

É evidente que os últimos doze anos foram de proveitoso desenvolvimento para Guarulhos. Embora ainda esteja longe de um piso ideal, houveram melhorias na cidade em relação à estrutura básica. Asfalto e iluminação foram levados a quase totalidade das regiões,além da construção de escolas, creches, unidades básicas de saúde e CEUs, etc. Todos estas melhorias, somadas ao aumento real do salário mínimo, melhoraram as condições de vida dos trabalhadores. Contudo, como disse, estamos distantes do que seria considerado ideal. Existe ainda uma grande concentração de empregos e equipamentos no centro da cidade e a especulação imobiliária impera e invade até os bairros mais distantes, empurrando ainda para mais longe o cidadão de menor renda. Da soma destes fatores, resulta um dos maiores problemas da cidade, a mobilidade urbana.

É diante desta realidade que se fazem necessárias a sensibilização e a mobilização da sociedade para a participação da Conferência da Cidade, que será organizada e realizada pela Prefeitura de Guarulhos nos dias 24, 25 e 26 de maio. O espaço é para que a população e os administradores da cidade possam debater e definir os critérios de ocupação e uso do solo, as políticas habitacionais e de saneamento ambiental, além dos meios de aumentar a participação popular nas decisões correlatas.

A necessidade de um projeto de inclusão social para a cidade é evidente. A cidade precisa ser pensada em núcleos que permitam, na medida do possível, o curto deslocamento entre casa, trabalho, lazer e educação. Devemos lutar para coibir a livre especulação mobiliária e por saídas inteligentes para a mobilidade urbana. Devemos ter em mente que as práticas sociais também dependem da disposição e da ocupação dos espaços na cidade.

O Núcleo Carlos Marighella e o Vereador Rômulo Ornelas estarão presentes nas salas de debates, buscando a transformação da cidade de poucos para a cidade de todos. Para quem se interessar, as inscrições podem ser realizadas no site eventos.guarulhos.sp.gov.br.

 

 

*Fonte: Prefeitura de Guarulhos (números aproximados)




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