A Cracolândia em debate

Provavelmente grande parte da população deve ter acompanhado a ação policial na “cracolândia”, ocorrida recentemente. Maior consenso ainda deve ocorrer em torno da necessidade de uma ação naquele local onde se encontravam muitos dependentes químicos. Em entrevista recente, Maria do Rosário, Secretária Nacional de Direitos Humanos, também afirmou esta necessidade. Todavia, em que pese a necessidade de uma ação deste porte, ela foi realizada de maneira desvirtuada e confusa, desconsiderando que a dependência é uma questão de saúde pública e camuflando os reais interesses entorno desta ação, como o “saneamento social de tipos indesejáveis da região central da cidade”, a “especulação imobiliária”, que fica prejudicada naquela região, além de outras razões que não convém mencionar no momento.

Na outra face se encontram conseqüências que a grande mídia esconde através de entrevistas contendo “belos discursos” de pessoas que participaram da ação: para onde foram os dependentes?? Segundo os cidadãos podem observar nos noticiários, de acordo com agentes públicos representantes do Estado, o município de São Paulo possui locais suficientes para o tratamento destes dependentes, o que é uma das grandes mentiras utilizadas para ganhar o apoio da população diante do que ocorreu.  A verdade é que a ação policial consistiu apenas na desocupação do local (além do uso extremo de violência). Para onde os dependentes estão indo a grande mídia não faz a menor questão de mostrar.

Em Guarulhos, trabalhamos com algumas clínicas que tratam de dependentes químicos e, após a desocupação da cracolândia, estas clínicas não estão conseguindo atender a grande quantidade de dependentes que estão vindo do município de São Paulo procurar tratamento.  Provavelmente o mesmo está ocorrendo nas diversas cidades localizadas no entorno da capital paulista, deixando claro o viés militar e autoritário da ação, que consistiu simplesmente  na EXPULSÃO dos dependentes, e a falta de sensibilidade em relação a questão de saúde pública representada pela dependência. Este viés fica mais claro ainda quando o Senador Demóstenes Torres (DEM-GO) propõe a volta de penas de prisão para o uso de entorpecentes, buscando transferir a responsabilidade do Estado, que não consegue combater o tráfico, para o dependente.

Com isso, a região central da cidade de São Paulo fica “limpa” e se torna mais valorizada enquanto as demais regiões da capital paulista, e muitas cidades vizinhas, ficam ser ter alternativas de tratamentos para o vasto contingente de dependentes que ganharam as ruas.

Por isso devemos ficar atentos às ações do Estado e saber nos posicionar pois a realidade é bem diferente do que é mostrado na grande imprensa. Quem tem dependentes na família sabe disso.




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